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Sábados de Infância

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Havia uma ordem cronológica imutável nos meus sábados de infância. O dia não nos pertencia; pertencia à casa e ao costume. Começava com o cheiro a detergente e o barulho dos baldes. Limpava-se a casa de ponta a ponta, como se estivéssemos a preparar o cenário para algo maior. Depois, o banho — aquele banho mais demorado, que servia para tirar o pó da semana e nos deixar prontos para o "figurino" de domingo antecipado. E, finalmente, o destino inevitável: a missa na capela da aldeia. Confesso, sem culpas, que não gostava. Para uma criança, aquele silêncio forçado e os bancos de madeira rija eram uma eternidade roubada à brincadeira. Eu não ia por fé ou vontade; ia porque era obrigado. Era o contrato invisível daquela época: primeiro o dever, depois o resto. Hoje, ao abrir esta gaveta, percebo que não sinto falta da missa, mas sinto falta daquela disciplina comunitária onde todos os vizinhos se cruzavam no mesmo caminho, com o cabelo penteado e o cheiro a sabonete, cumprindo um...

Onde o Mundo Era Nosso

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A porta de casa era um portal que raramente se fechava. Naquela época, a liberdade não se media por metros quadrados, mas pela facilidade com que os meus amigos entravam e eu saía para a rua. A casa estava sempre cheia; as vozes misturavam-se e o som da nossa correria era a banda sonora dos dias. O nosso mundo estendia-se para além das paredes da casa. O mato ali perto, com os seus sobreiros antigos, era o nosso quartel-general. Passávamos horas entre as árvores e os campos vizinhos, onde o maior luxo era colher pêssegos diretamente dos ramos. Não havia nada que soubesse melhor do que aquele fruto acabado de apanhar, com o sumo a escorrer, comido ali mesmo, no meio da nossa liberdade. Naquele mato e entre os campos de pêssegos, nós não éramos apenas miúdos a brincar; éramos os donos do mundo. Não havia relógios, cercas ou avisos que nos detivessem. Cada sobreiro era uma torre de vigia e cada trilho aberto entre as ervas altas era um caminho conquistado. Tínhamos a certeza absoluta de q...

Entre a Renda e a Escuridão

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A minha mãe não estava e, sendo o irmão mais velho, o peso de ser o homem da casa caiu-me nos ombros com o som seco de um alicate. Enquanto os agentes da EDP cumpriam a sua tarefa fria, eu senti o sangue ferver de impotência. Tive de engolir a revolta e manter a voz firme para que o choro das minhas irmãs não transbordasse. Elas eram crianças, mas eu já tinha idade para entender a humilhação de nos tirarem a luz só porque a renda de casa estava em atraso. Fiquei ali, parado na entrada, a tentar ser o pilar de um teto que parecia estar a desabar sobre nós. O silêncio que ficou na casa era pesado, carregado de uma vergonha que não nos pertencia. Movido pela raiva, fui atrás dela pedir justificações, gritando que a eletricidade era sempre paga atempadamente. Ao que ela me respondeu secamente: 'Mas a renda não!'. Afastou-se de imediato, segurando uma pedra na mão, pronta a atirá-la caso eu me aproximasse mais. Sem palavras perante a frieza da resposta e a ameaça física, dei meia vo...

A Gaveta que decidi abrir

Sempre tive esta gaveta. Todos nós temos uma. É aquele lugar onde guardamos o que não serve para o palco, o que não cabe numa piada de trinta segundos e o que é demasiado frágil para as luzes da ribalta. Durante meses, a personagem falou por mim. Ela é a minha farda, a minha defesa e, muitas vezes, a minha alegria. Mas, por trás dela, o Hélder tem histórias que não precisam ter piada no fim. Tem memórias que cheiram a café acabado de fazer, silêncios que pesam e desabafos que precisam de ar. Este blogue é o momento em que abro a gaveta e deixo o conteúdo vir cá para fora. Sem filtros, sem pressão para fazer rir, apenas com a verdade do que sinto. Bem-vindos à minha gaveta. Espero que se encontrem em algumas das minhas memórias também.