Sábados de Infância
Havia uma ordem cronológica imutável nos meus sábados de infância. O dia não nos pertencia; pertencia à casa e ao costume. Começava com o cheiro a detergente e o barulho dos baldes. Limpava-se a casa de ponta a ponta, como se estivéssemos a preparar o cenário para algo maior. Depois, o banho — aquele banho mais demorado, que servia para tirar o pó da semana e nos deixar prontos para o "figurino" de domingo antecipado. E, finalmente, o destino inevitável: a missa na capela da aldeia. Confesso, sem culpas, que não gostava. Para uma criança, aquele silêncio forçado e os bancos de madeira rija eram uma eternidade roubada à brincadeira. Eu não ia por fé ou vontade; ia porque era obrigado. Era o contrato invisível daquela época: primeiro o dever, depois o resto. Hoje, ao abrir esta gaveta, percebo que não sinto falta da missa, mas sinto falta daquela disciplina comunitária onde todos os vizinhos se cruzavam no mesmo caminho, com o cabelo penteado e o cheiro a sabonete, cumprindo um...