Entre a Renda e a Escuridão
A minha mãe não estava e, sendo o irmão mais velho, o peso de ser o homem da casa caiu-me nos ombros com o som seco de um alicate. Enquanto os agentes da EDP cumpriam a sua tarefa fria, eu senti o sangue ferver de impotência. Tive de engolir a revolta e manter a voz firme para que o choro das minhas irmãs não transbordasse. Elas eram crianças, mas eu já tinha idade para entender a humilhação de nos tirarem a luz só porque a renda de casa estava em atraso. Fiquei ali, parado na entrada, a tentar ser o pilar de um teto que parecia estar a desabar sobre nós.
O silêncio que ficou na casa era pesado, carregado de uma vergonha que não nos pertencia. Movido pela raiva, fui atrás dela pedir justificações, gritando que a eletricidade era sempre paga atempadamente. Ao que ela me respondeu secamente: 'Mas a renda não!'. Afastou-se de imediato, segurando uma pedra na mão, pronta a atirá-la caso eu me aproximasse mais.
Sem palavras perante a frieza da resposta e a ameaça física, dei meia volta. Regressei a casa a caminhar a passos largos, com o sangue ainda a ferver, mas sentindo o peso do silêncio que me esperava entre as paredes agora escuras.
Quando a minha mãe chegou, ainda estávamos sem luz. Mais tarde, uma vizinha soube da situação e disponibilizou-se para nos trazer um fio, permitindo-nos ligar uma lâmpada para que, pelo menos, não ficássemos às escuras — uma extensão elétrica que era, na verdade, um salva-vidas.
Ligámos uma única luz na cozinha. Aquele brilho emprestado não vinha da rede, vinha da compaixão. Ali percebi que a luz que realmente importa é aquela que as pessoas acendem umas nas outras quando o mundo decide ficar às escuras.

🥰🥰🥰🥰🥰
ResponderEliminarTriste mulher que fez isso a uma casa com crianças. Que um dia lhe falhe a luz também, e não me refiro à elétrica
ResponderEliminarHélder, ADOREI esta tua memória! 👏🪷👏Confirma os teus multi-talentos ☀️ Estou aqui para te continuar a ler 👀
ResponderEliminarMaravilhoso📝✨
ResponderEliminar🥺💖
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