Onde o Mundo Era Nosso


A porta de casa era um portal que raramente se fechava. Naquela época, a liberdade não se media por metros quadrados, mas pela facilidade com que os meus amigos entravam e eu saía para a rua. A casa estava sempre cheia; as vozes misturavam-se e o som da nossa correria era a banda sonora dos dias.

O nosso mundo estendia-se para além das paredes da casa. O mato ali perto, com os seus sobreiros antigos, era o nosso quartel-general. Passávamos horas entre as árvores e os campos vizinhos, onde o maior luxo era colher pêssegos diretamente dos ramos. Não havia nada que soubesse melhor do que aquele fruto acabado de apanhar, com o sumo a escorrer, comido ali mesmo, no meio da nossa liberdade.

Naquele mato e entre os campos de pêssegos, nós não éramos apenas miúdos a brincar; éramos os donos do mundo. Não havia relógios, cercas ou avisos que nos detivessem. Cada sobreiro era uma torre de vigia e cada trilho aberto entre as ervas altas era um caminho conquistado. Tínhamos a certeza absoluta de que aquele horizonte nos pertencia, e o sabor do pêssego roubado à árvore era o prémio de uma soberania que só a infância permite sentir.

Regressávamos a casa com os joelhos esfolados e o coração cheio, sabendo que amanhã o mato estaria lá outra vez à nossa espera. Naquela altura, o mundo não tinha limites, e nós tínhamos todo o tempo do universo para o descobrir.

 

Comentários

  1. Que maravilha! Felicidade plena e liberdade para vivê-la! Éramos muito felizes!

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  2. Hoje, a infância do campo é substituída pelos tablets e pelas 500 atividades que impingimos aos miúdos.

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  3. Olá Hélder.Eu posso me dar ao luxo de ter vivenciado tudo isso e muito mais.Tenho o dobro da tua idade e nos dias de hoje qua recordamos a infância á conclusão que chego são as melhores memórias que recordo.Era tão MARAVILHOSO podermos recuar no tempo.

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