Sábados de Infância
Havia uma ordem cronológica imutável nos meus sábados de infância. O dia não nos pertencia; pertencia à casa e ao costume. Começava com o cheiro a detergente e o barulho dos baldes. Limpava-se a casa de ponta a ponta, como se estivéssemos a preparar o cenário para algo maior.
Depois, o banho — aquele banho mais demorado, que servia para tirar o pó da semana e nos deixar prontos para o "figurino" de domingo antecipado.
E, finalmente, o destino inevitável: a missa na capela da aldeia.
Confesso, sem culpas, que não gostava. Para uma criança, aquele silêncio forçado e os bancos de madeira rija eram uma eternidade roubada à brincadeira. Eu não ia por fé ou vontade; ia porque era obrigado. Era o contrato invisível daquela época: primeiro o dever, depois o resto.
Hoje, ao abrir esta gaveta, percebo que não sinto falta da missa, mas sinto falta daquela disciplina comunitária onde todos os vizinhos se cruzavam no mesmo caminho, com o cabelo penteado e o cheiro a sabonete, cumprindo um ritual que, bem ou mal, nos unia a todos no mesmo sábado.
Mas havia uma recompensa.
Muitas vezes, depois da missa, o ritual não acabava no silêncio de casa, mas no barulho de um restaurante. Íamos jantar fora. Era o momento em que o peso da obrigação e o rigor do altar finalmente davam lugar ao descanso e ao convívio. Ali, entre o tilintar dos talheres e as conversas mais soltas, o sábado ganhava outra cor. O dever estava cumprido e a recompensa sabia a liberdade.

Esta sua memória, fez-me recuar no tempo. Os meus sábados também eram um pouco como os seus. Obrigada pela partilha.🙂
ResponderEliminarComo eu o entendo......
ResponderEliminarSaudades
ResponderEliminarVerdade...Saudades dos meus avós maternos saudades desse tempo 🥹
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